Em vias de ser demolido, prédio onde funcionou um dosmaiores cinemas da cidade nas décadas de 60 e 90 pode
virar um centro cultural dedicado às artes visuais.
Cine Nordeste já abrigou, em períodos diferentes, uma igreja evangélica e uma casa de shows.
Há pouco mais de um mês, um assunto vinha se tornando onipresente nas rodas de conversa dos meios culturais de Natal. A reforma pela qual passava o antigo prédio do Cine Nordeste, na Rua João Pessoa, no centro da cidade, vinha indignando arquitetos, artistas, historiadores e produtores culturais.
O edifício, no qual durante as décadas de 60 e 90 funcionou um dos maiores cinemas da cidade e nos últimos anos abrigou em períodos diferentes uma igreja evangélica e uma casa de shows, sofria a ameaça eminente de ter sua fachada e dependências internas destruídas para dar lugar a um estacionamento 24 horas.A realização da reforma mobilizou boa parte da classe cultural da cidade. Órgãos públicos foram acionados e abaixo assinados produzidos na tentativa de embargar a obra e conseguir o tombamento do imóvel junto ao Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan).
A causa já havia sido dada como perdida por seus próprios defensores, quando uma decisão inesperada mudou o destino do Cine Nordeste.
Ao tomar conhecimento da movimentação em torno do embargo da obra e da importância histórica e arquitetônica do prédio, o proprietário José Pereira Neto decidiu voltar atrás. O empresário, que reside em Recife, resolveu interromper a obra e contatou a Fundação José Augusto em busca de parcerias com entidades culturais que pudessem ajudar a revitalizar o espaço.
A FJA, por sua vez, tratou de colocar o empresário em contato com o Cineclube Natal, que recebeu a notícia com surpresa e felicidade.
“Sinceramente, nossas esperanças já eram as mais baixas possíveis. Ficamos muito surpresos e felizes com o contato dele, que se mostrou disposto a reativar o espaço para o desenvolvimento de projetos culturais”, conta Nelson Marques, diretor do Cineclube Natal.
Após conversas preliminares com o empresário, chegou-se ao conceito de um centro cultural dedicado às artes visuais e suas diferentes formas de expressão. Foram convidados a participar do projeto outras entidades da área como a ONG ZooN Fotografia, a produtora InterFilmes e a secção estadual da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD/RN).
Juntos, todos trabalham na elaboração do projeto desse novo espaço cultural. “A idéia é que todas essas entidades e associações participem da manutenção e do funcionamento do espaço. Planejamos retomar a exibição de filmes no local, mas também oferecer cursos e exposições de fotografia, seminários, etc. O plano é transformar o lugar em um ponto de discussão, de debate cultural”, explica Nelson Marques.
Embora já tenha um objetivo comum definido, o projeto ainda está em fase de gestação e discussão entre os envolvidos. Nas últimas semanas, três reuniões entre os produtores e o proprietário foram realizadas para discutir a melhor maneira de dar início ao trabalho de revitalização. De acordo com Nelson Marques, um esforço vem sendo feito para que o Cineclube e as demais entidades possam ocupar o prédio o mais rápido possível.
“No interior do prédio existem algumas salas desocupadas, nas quais poderíamos nos instalar para começar a desenvolver o trabalho. Uma vez que estivermos dentro do prédio, poderemos já começar a promover algumas atividades e impulsionar esse movimento em torno do local”, diz.
Em contrapartida pela ocupação do imóvel, as entidades irão se comprometer a elaborar um projeto que será levado a agências financiadoras nacionais, na tentativa de captação de patrocínio. “O Cine Nordeste é um espaço muito rico, existem muitas atividades possíveis de serem realizadas ali. Sem dúvida, é um lugar que o público de Natal precisa conhecer”, finaliza Nelson Marques.
Modernismo Épico
Construído na segunda metade da década de 50, o prédio do Cine Nordeste é um dos últimos exemplares arquitetônicos do modernismo em Natal. Edificação de ângulos arrojados e vanguardistas, o prédio foi durante muitos anos um símbolo do progresso na cidade.Para a professora Edja Trigueiro, do Departamento de Arquitetura da UFRN, a preservação do edifício é não só uma vitória, mas uma atitude rara se tratando da postura da cidade em relação a seu patrimônio arquitetônico. Uma das signatárias do abaixo-assinado que pedia o embargo da obra do estacionamento, a professora aponta o Cine Nordeste como uma peça fundamental na linha evolutiva da arquitetura potiguar.
“O prédio do Cine Nordeste é um dos poucos sobreviventes da primeira fase do modernismo, que tinha como característica principal aquele sentimento épico, de vanguarda mesmo”, diz, citando como exemplo dessa estética na cidade o antigo prédio do INSS, em Cidade Alta, e o Hotel Reis Magos, na Via Costeira. “Muitos prédios dessa fase já foram demolidos e os que sobraram não recebem o tratamento adequado. Infelizmente, o descaso é uma das características de Natal em relação ao seu patrimônio histórico”, lamenta.
Obra de um arquiteto desconhecido, o Cine Nordeste deve boa parte de sua identidade ao painel da fachada, projetado pelo desenhista Agnaldo Muniz, um dos pioneiros da arquitetura potiguar, ainda que não possuísse formação acadêmica na área.
Junto aos edifícios do quarteirão em que se localiza, o prédio forma o que a professora chama de “área da Praça Padre João Maria”, na qual estão retratados outros períodos pelos quais passou a arquitetura potiguar. Além das qualidades estéticas, a professora Edja Trigueiro também ressalta a importância sociológica do prédio na Natal de décadas anteriores. “O cinema, nas décadas de 60, 70 e 80 era um ícone de sociabilidade. Ao lado da praia, era o principal ponto de encontro e de lazer da juventude”, aponta.
Fonte: http://www.nominuto.com/cultura/cine_nordeste_salvo_pelo_gongo/20749/
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