Há pouco mais de 65 anos atrás nesta Cidade do Natal se iniciou um burburinho que não condizia com a pacatez do lugar. Movimento e barulho de gente. Algaravia idiomática. Misturada de costumes. Trabalhos inusitados e necessidade imperiosa de vida. Uma ruma de gente jovem. Alegre, mas apreensiva. Sonhadora, mas tenaz. Divertida, mas responsável. Inconseqüente, às vezes, como todos os jovens do mundo. Eram, contudo, jovens diferentes. Uma juventude em meio a uma guerra. E as guerras, então, ainda, e sempre, demandam a vida dos jovens. Estava em meio de gente estranha. Aliada, mas estranha. Divertida e cortês, mas, ainda assim, estranha. Como se morre fora de época nas guerras, poderia morrer naquele lugar. Estaria entre amigos, é certo, mas em terra que não era a sua.
Esses jovens moravam em lugar afastado. Nas imediações. Lá, onde trabalhavam. Onde sentiam saudades de casa quando a noite caía, de súbito. Rezavam por lá, e se perguntavam se sobreviveriam a tudo o que acontecia. Ninguém sabia quem iria vencer o conflito. Conflito mundial entre visões de mundo radicalmente diferentes.
Naquele campo cheio de pistas de rolamento existiam sonhos. Muitos jamais foram realizados. A visão aérea da cidade baixa, ao longe, foi o último lampejo de civilização para muitos que, sem saber, decolavam para o eterno. Voavam pela derradeira vez como humanos. Talvez, no céu do Paraíso, voltassem a voar, como anjos, pois todo o jovem o é, independente de ideologia política.Inocentes, pois jovens, manuseavam as munições e armavam as pesadas metralhadoras dos pássaros metálicos que se iam à África e Córsega e Itália. Mercadejavam a morte. A morte resultado da guerra. Sabiam da necessidade em fazê-lo. Faziam-no por ser necessário.
Na efervescência dos hangares e das oficinas; na balbúrdia dos alojamentos e dos refeitórios; na azáfama dos hospitais, todos respiravam a guerra. As lembranças dela. As memórias dela. A apreensão e o receio por seres queridos que a enfrentavam em outros lugares. A recordação de alguém que não retornara. O medo de não voltar. Tudo ali era a guerra! Tudo era para a guerra! Do trabalho ao espírito, da conversa aos atos.Mas ali bem perto, pouco mais de uma dezena de quilômetros, morava a Paz. Justo na cidade que honra o nascimento daquele que nasceu para trazê-la ao mundo: a Cidade do Natal .
Sair de Parnamirim Field e ir para Natal, mesmo que por poucas horas, era retornar a um mundo de normalidade. Sua população nunca conhecera a guerra. A destrutiva guerra moderna. Tudo aquilo, para ela, era encarado de maneira algo divertida. Algo exótico e temporário. Diferente e original. Quase sempre alegre. Tornava tudo um pouco descompromissado. Era como alugar uma casa de veraneio, e permanecer nela como hóspede. Cabia ao novo inquilino fazer o rancho, naturalmente.
Assim, Natal foi o Paraíso terrestre de uma parcela de jovens guerreiros. Quase todos já se foram. Uns, nos azares da guerra; outros, levados pelo Tempo. Mas um dia, há muito tempo, dispensados do serviço, de folga, ou de licença, veio a Natal para respirar a Paz. Bela missão tem a nossa terra. Vinham atulhando caminhões em meio a brincadeiras. Vinham de jeep, mais comedidamente. Vinham de ônibus, regrados pela disciplina. Mas, viessem como viessem, no que quer que fosse, sempre vinham rodando por uma estreita e negra faixa de asfalto construída em função da guerra: a Parnamirim Road.
O chiado dos pneus rascando os pedriscos unidos pelo betume asfáltico era o som que lembrava a liberdade, a paz, a harmonia e a ausência da guerra. Era a marca do caminho para Natal, cruzando, quase que em linha reta, o tabuleiro de Parnamirim, atravessando dunas brancas-amareladas e cortando o pequeno rio Pitimbu.
Mais do que ter servido à guerra, a estrada serviu à paz, e o zumbido intermitente do rodar sobre seu pavimento foi o som reconfortante, com jeito de som doméstico, aos soldados de então, e de quem hoje descendem filhos, netos e bisnetos.
Essa pequena, estreita e histórica pista de asfalto, talvez a primeira do Brasil fora de perímetro urbano, ainda subsiste – talvez por ter sido esquecida – e parte dela, desativada, está a ponto de ser irremediavelmente destruída pela duplicação da BR-101. Paradoxalmente, será destruída pelas máquinas de nossos batalhões de engenharia do Exército Nacional, tão ciosos e partícipes de nossa história militar.
O que pode salvá-la – ao menos em um trecho significativo? A só vontade do Poder Público, ou a intervenção do competente Ministério Público, a quem clamamos por providências.
A Estrada de Parnamirim do tempo da Segunda Guerra – PARNAMIRIM ROAD – é uma estrada por onde cruzaram, em um momento de importância histórica mundial, os ancestrais diretos de muitas pessoas que ainda gostariam de vir a nossa terra prestar homenagem aos seus manes, e pisar na estrada que utilizaram.Façamos um esforço concentrado e salvemos um pedaço dessa estrada, parte significativa da história do Rio Grande do Norte, e especialmente das cidades de Natal e de Parnamirim.
- Walner Barros Spencer, Arqueólogo - Bacharel em Hiistória - Mestre em Sociologia - Doutor em Antropologia.
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